#214 A Teoria dos Relógios Dessincronizados


Há uns bons anos atrás, tinha a velha mania de escrever teorias filosóficas e de dissertar sobre o tudo e o nada. 
 
Bem sei que não tive uma infância e adolescência igual à maioria. Mas prezo precisamente isso.
 
Fazia-o com um velho amigo, irmão mesmo, que discorria sobre as suas perspectivas de vida e eu sobre as minhas, em franca partilha e debate intelectual entre iguais. Ainda hoje.
 
Recordo ainda bem uma teoria dele, bastante apreciada por mim e que mais não era que a “Teoria do Equilíbrio”, fundamentada em equações e bem pensada.
 
Uma das que mais gosto me deu escrever, foi a “Teoria dos Relógios Dessincronizados”.
 
Dizia eu, à época (resumidamente), que todos seríamos portadores de um relógio vital. Não pense o leitor que era uma mera apreciação do conceito do nosso tempo de vida e da sua relatividade.


O objecto de estudo era o amor e as relações no quadro de amizade e outros.
 
Ora esse “relógio”, estava programado para eventualmente estar “certo” num determinado tempo.
 
Ao longo da vida, cruzar-nos-íamos com outros “relógios”. Umas vezes estavam certos com o nosso. Outras: não.
 
Mas mesmo os “certos”, iam-se desprogramando com o tempo, lutando contra os incríveis desafios que os impediam de permanecerem certos, sincronizados um com o outro.
 
Por outro lado, por vezes dois ou mais relógios cruzavam-se. Mas… por horas, minutos ou meros segundos, não estavam sincronizados um com o outro. E por isso: não se reconheciam… (quem sabe noutra vida?)
 
Curioso fado o nosso, portadores de relógios vitais, que ora somos.
 
Por um motivo ou por outro, ao longo da vida, regresso vezes sem conta a essa Teoria, que se encadeia precisamente numa outra: a “Teoria dos Iguais, dos Diferentes e dos Diferentes dos Diferentes”.
 
Não vou aqui discorrer sobre ela, mas é sem dúvida um grato orgulho pertencer a estes últimos, por mais dores que isso acarrete. Mas a vida… essa coloca-nos à prova todos os dias.
 
E recusarmos o caminho fácil de pertencer à classe dos “Mais Inteligentes dos Burros” ou aceitarmos se preciso for e durante um período: ser os “Mais Burros dos Inteligentes”… não é de facto para todos.
 
Um bom Carnaval, estejam por onde estiverem, aceitem e sejam felizes com as vossas escolhas. Quaisquer que elas sejam, mas delas não se lamentem.


Eu, da minha parte, estou cada vez mais imune à passagem do tempo, cada vez mais ciente do meu papel por “aqui” e mais desprendido.


Desapegarmos-nos do que nos faz “bem” e combatermos a aversão do que nos faz “mal”, é o mais importante desafio. Nem cultivar a ansiedade pelo futuro, nem o apego às memórias agradáveis do passado.


Tudo é sempre afinal tão relativo! Cada vez estou mais certo disso.


A dor de hoje, uma vez compreendida e relativizada, contextualizada, compreendida e ultrapassada: é a maturidade de amanhã e a segurança nas decisões.

É só estar atento, ler os sinais, observar.


Observar…


Observar.






Meditemos.